Ardor Visceral


Meu corpo flutua 
num espaço absorto...
Me integro ao cosmo, 
aborto aberto,
céu, vento incerto, 
sangra-me o horizonte
o dia, a noite, 
certeza terrena, 
obscena serenidade.

A luz invade, 
me abre, 
me expõem 
as vísceras,
o amor se agrava 
e corrói as bases 
já podres
da sociedade... 
Busca-se saciedade... 
Consumo-me...
Minha vida 
é uma mentira... 
Procuro-me...

Recuso prioridades... 

Você não sabe quem é
até perder-se... 

Nós somos 
a saciedade...
E a fome... 

A sociedade... 
E a fome...

Eu tenho fome 
de desejos 
desenfreados...

Me morro 
aos bocados... 

Eu penso! 

Se a morte é premente 
e eu não tolero
em mim uma semente, 
quem serão os filhos
dessa Lua demente 
que se lança assim em 
pleno dia

inresolvida, 
desacabada?

Hei de merecê-lo, 
o Sol pleno, inteiro
meio de alcançá-lo, 
vou solfejar, treinar
sua falta, doce flauta, 
filho que nunca veio,
com o fogo de minhas 
veias alimento um anjo!

Seu nome é o ápice 
em que acabo, o êxtase...
Não serei mais nada 
só sua mãe e temo
não ser sua mãe mesmo, 
não o suficiente...

Quero e não quero 
tudo que desejo...


Vejo e não vejo 
tudo o que vejo...

Só a música me toca, 
madrugada louca
beirando o remanso, 
minha casa, 
desejo manso 
de se encontrar 
nesse nada...

Ser & não ser, 
em uníssono... 

Nada a perder, 
só indícios 
de uma certeza:
de que tudo passa, 
rios, madrugadas,
só o que fica 
é a impermanência...

O que é consciência? 
Uma faísca finita...

O que é coincidência? 
Uma certeza esquisita...

E nada compensa 
nessa vida? 
Tudo passa...
Tudo se arrisca... 

Como estrelas 
no espaço
cortado 
pelo tempo, 
voraz, 
pra onde vamos,

de onde vieram 
esses pensamentos?

Meu filho nasceu, 
morrendo...

Rasgou-me, 
partiu-me ao meio...
Para me ter 
por inteiro...

Ardor, 
profundo êxtase...

O vazio inacabável...

O sim...
O fim...
Assim...

Em mim...

Um ser finito
que secreta o infinito,
cruel vertente,
traço intermitente,
a virtude,
o vício...

O meu melhor
o meu pior

tudo por ti,
pra ti,

o inexistente
filho

- perdido,

aflito -
sereno

- ser pleno

que soa,
que sou,
que são,

curador 
da dor, 

da ilusão,

meu menino,
meu mestre,

meu amigo,
meu irmão,

meu amado:

trans -
formado

pelo afã

da roda 
que engrossa
o sangue

nas veias
pulsantes,

que antes
do tempo,

o mesmo
tempo de
sempre,

o inexistente
filho

do movimento,

antes
ainda

do movimento,

tecendo
moradas

engendro,

raízes, soa
o imenso,
o dom que

impercebo,

inato, o ínfimo

abstrato,

o êxtase

auto-suficiente

menino 

que não pari, 

não pararei,

continua-me,

poesia que não

acabo,

que seduz-me...

Posso
cantar-te
além,

hei de cantar-te
e sei

que você 
cantará,

em mim,
também!

Amor, amém,
leito de morte

te sei,
de dor,

ou há amor imaterial?

Transcendendo

o seu quintal

o imenso abstrato,

o mundo todo

rodando e o

leite galático;

sente,

lá dentro Ananda
é latente, sobreviveu
no céu do ardor.

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