A Criança


CORPO DE GOZO

SEMENTE DE ÊXTASE

VAZIO / PREENCHIDO

LUZ QUE SEDUZ

FELICIDADE SEM IDADE

ANANDA AVANÇA...

A Esperança


Busco Ananda,
a felicidade 
de meus dias 
de criança,
a pureza,
alegria 
adamantina,
a fluidez
da luz que
seduz-nos 
à vida!

Eu te espero,
como às manhãs...

Ensolaradas paisagens -
úmidas ainda de tanta noite
recebem os primeiros 
raios fecundos do dia...

Amanhecer como as flores
em seus suspiros, sem surpresa,
surgindo suavemente como 
a estrela da escuridão...

Menino solar, 
o seu olhar
é o meu, o sondar

atento do movimento, 
suave formigamento,
o preciso momento -

ou um fragmento -
a me integrar...

Espero em silêncio
o seu despertar...

A Proteção

Ananda me chama,
me queima...

Ananda na beira
do abismo, criança
que me toma o juízo...

Ele me diz o que fazer!
Só sei sonhar com você!

O ser, nasce e morre
sozinho, mas

Ananda, é meu filho,

minha carne
meu destino

- mas não é meu filho,
dá para entender?

Sou eu quem grito,
à beira da lucidez...

Lá embaixo, vejo
a tez do rio, digo
o nome das árvores
que seguram-se nos
cílios d'olho d'água

- e a dúvida, 
nunca acaba?

O menino me acena,
quer que eu me perca,
me seduz à luz...

Quer que o queira
mas não

segura na minha mão...

Mãe, que enfrenta
a insegurança 

da nascença

que carregamos por
descrença

- ou por fatalismo?

Ananda é meu filho,

meu sangue,
meu signo,

os sentidos reunidos,

cristalino
compreender...

Nada mais, nada menos,
Ananda, meu incesto,
meu amor;

o momento
preciso,

adamantino,

a ânsia:

o contido,
o brilhar,
o perecer.

Pode parecer
absurdo

mas Ananda é
o mundo,

como vejo,

ou, o jeito que vejo,
o que é,
então.

Meus olhos, meu olhar,
e a visão - o aviso!

É o mundo a girar, 

dividido,

nostalgia do divino,
jóia do desanuviar...

Ígneo solo a pulsar
com esmero infinito,

do fogo aos mistérios 
dos reis e ministros

- mas ninguém, ninguém
supera Ananda e seu

poder... Sua pureza
contra qualquer aspereza,
sobre qualquer opressão!

Meu anjo guardião!

Protejo-o,

em meu seio,
um desejo
menino,

um suspiro azul
alimento

com o sumo vermelho

de seu próprio
engraçamento!

Ananda, a busca
e a conquista,
a alma que anima 
as coisa vivas,
aliança, me cansa,
mas me dá motivo

de continuar vivo,
humano, resquício
de entendimento,

faísca de realização!

Um anjo maroto cativo,
a inocência, uma incisão

- nasce meu filho
morto, ângulo, abismo.

No limite da razão
dança o menino...

Nasce tão lindo
tão livre 
quanto sonhei...

Ananda é a cria
ardente
da confusão
da minha mente
com o cerne
de minha carne -

Ananda é a tarde,
que cai, tom extremo,

agudo êxtase
que me transforma
em nada, nuvem
manchada de Sol,
salmão, dourado,
flor machucada
pelo vento,
pelo atento
rondar das horas.

Ananda é a aurora,
a espera, o revolver.

Mata-me de amor

doçura profunda, procura,
o querer e se satisfazer.

Me guia. Me ilumina.
Me faz anoitecer/adiar
a sua vinda. Vida,

luminosa jóia minha,

criança que acompanha
a Lei que arbitra
sobre nossas cabeças
sentenças inscritas

- é a saída - e o sal,
a sina... É tudo o que
desejo e o que renuncio,
eterno cio, brilho,

beleza, o instinto genuíno,
influxo, sede de luz,
divino ardil absorvente
libertador / ardente / frio

filho, fio de entendimento
laços com o qual me ligo
ao infinito... 

Me habita, te habito,
te tato, te ouvido,
amo-te, tanto...

Enquanto o céu azul
não estreitar 
- mais...

Mais, amo mais,
amo te amar...

Nada há a fazer,
só te gerar, na ilusão
de que ainda há

lugar para 
você coabitar

entre os vivos...

Meu filho morto,
nunca tão vivo,

tua nuca atenta
enquanto brinco

na beira 

da beira

do abismo...

O olhar eu adivinho,
divagando sobre os cimos,

negros,
vítreos,

cuidando 
de mim

como eu
cuido

do destino...
Silenciosamente...
Eu grito...

Ananda, me chama,
me queima, e eu me arrisco:
vou contigo, vôo contíguo,

me extinguo...

Nada mais, soa.
Somos tudo, voa!

Nada mais
doa 
a quem,
do ar,

prefere
aterrar,

esperar outra vida...

Espera, garoto,
outra vida...

Uma vida dentro 
de outra vida...

Mil vidas 
não seriam
suficientes
para tamanha

façanha!

O menino canta!
Como um pássaro,
vejo-o à distância!

Estou e não estou,
existo e não existo -

só sou em Ananda,
na beira do abismo.

A Real Idade


São, do meu sangue,
dos meus sonhos
para a dualidade
ele emerge desses 

mares,

do que seja
profundidade,

gruta grotesca,
gutural permeio -

meu ventre,
sem véus...

Consciência
que nasce,

irrompe em berro -

no principío era o verbo,
mas o verbo não se satisfaz!

Quer mais, quer o eterno,

e eu com ternura o acalento
e conservo-o com minha seiva:

meus versos,
meu avesso,

o contrário -
que eu desconheço o tom

- mas percebo as nuanças 
quando fecho os olhos
e olho para o sol...

Vermelho...
Menino azul,
você é 

vermelho

por dentro!

Todos vocês!

São, dos meus sonhos
para a realidade, a cor,
o acorde, o acordar,

a coroação 
da nobreza:
a pureza
da percepção!

Absorto

Pedido perdido
entre as nuvens noturnas,
seus olhos oscilam,
e uma pergunta perdura
por ciclos à fio,
sem alcançar, enfim,
as estrelas.

Ah, se caíam,
eram lágrimas
de um céu confuso
- atravessando 
eternidades
empoeiradas
de tanto esperar
por esse sim,
e assim,
poder sonhar 
abertamente 
pelo espaço -
para que todos vejam
o filho deste raio!

Alegria Adamantina


Ananda é uma criança celestina.

Ainda não anda, mas já caminha
pelo firmamento, montado no vento.

Ainda não fala, mas escuto-o no
zumbido infinito da concha do ouvido.

Ainda nem nasceu porém é tão grande
e radiante como um diamante ígneo

reluzindo no céu do meu destino vivo.

Chega a noite, e os guardiões guardam
os portões do templo, nenhum movimento.

Queimo por dentro de felicidade e 
lamento pelas cidades que não a vêem.

Ananda é uma criança intuída fluída.
Ele dança no espaço vazio e descansa

no infinito.

Ananda, aliança com a vida.

A lama assenta-se e esclarece a correnteza.

Límpida água que consagra sunyatha,

Ananda, criança amada...

Aliança


Ananda,
criança
amada.

Atada
à dor,

a luz,

o amor,
o prazer

atemporal.

Um elo
que quebro
e torno
a fundir
em mim,

na chama
viva

do respiro
da trama

que habito

organelas
células
tecidos

textos
que escrevo
com meu
sangue.

Cria minha,
filho ou 
filha,
creio em
crise 

desterro

procura
o seio
da escolhida

- atriz 
maldita,

humana
inscrita

nos meandros
da herança
que nos molda.

Hélices
de luz,

prótons,
proteínas,

permito
que a vida
me invada

e evada,
altiva!

A criança
cresce
e me estica...

Alarga-me,
lira de minhas
tripas!

Ananda,
visceral
permeio:

tenro segredo,
terno desvelar.

O fim, o começo,
ardor circular.

Nova mente 
me deparo
com esses

tempos, urgência,
desterro,

meninos soterrados
sob o luar...

Ananda
avança

iluminado,

me abre

destino 

solar!

Nos interstícios
do efêmero,

Ananda veste-se 
com minha pele,

reveste-me,

mora em mim,
e é meu lar...

Eterno, 

perene
permeio,

a impermanência
é o dom

de gozar

o dom

que é domar

o dom

que é

nadar no ar

que é

voar no mar

que é

morrer 

sem dor,

que é viver

sem dar

importância
excessiva

à vida,

exceção 
absoluta,

inaudita,

conquista

que perfila

meus filhos
filhas

minhas

conquistas,

ceder,

à sede,
ao sol,

serenando

vertente

farol...

Ananda 
criança

estrela

guia...

Não há
distância
para 

sua vinda...

Amor Imaterial


O filho do raio,
O anjo da espada flamejante,
Portador do poder
Do rei que o eviou,

Quem é você?

Doce paradoxo,
paro para
ver... Nuvens 

banham-se
em sangue,

fogo
água

o vento
tange sua
flauta,

e me acende...
Ananda chama!

O filho do alento,
o guardião do segredo

- e o segredo é que não 
existe segredo,

nem dor, nem amor
nem medo

nem eu
nem você...

Filho do desejo,
como todo mortal 

que conheço,

mas purificado

pelo raio
resoluto,

eu, raso luto 
a chapinhar

e a morte 
a rondar,

rindo,
de meu desespero:

um mar 

inteiro

e eu a chorar por uma
lágrima perdida...

Filho da vida,
da luta indigna,
filho da mãe
degenerada

todo em sangue
e eletrecidade

filho das ruas
das cidades
filho do fio

da meada

achado na calçada
de uma madrugada

vazia...

Agora, eu posso morrer.

Deixei meu melhor pra você.