Ananda me chama,
me queima...
Ananda na beira
do abismo, criança
que me toma o juízo...
Ele me diz o que fazer!
Só sei sonhar com você!
O ser, nasce e morre
sozinho, mas
Ananda, é meu filho,
minha carne
meu destino
- mas não é meu filho,
dá para entender?
Sou eu quem grito,
à beira da lucidez...
Lá embaixo, vejo
a tez do rio, digo
o nome das árvores
que seguram-se nos
cílios d'olho d'água
- e a dúvida,
nunca acaba?
O menino me acena,
quer que eu me perca,
me seduz à luz...
Quer que o queira
mas não
segura na minha mão...
Mãe, que enfrenta
a insegurança
da nascença
que carregamos por
descrença
- ou por fatalismo?
Ananda é meu filho,
meu sangue,
meu signo,
os sentidos reunidos,
cristalino
compreender...
Nada mais, nada menos,
Ananda, meu incesto,
meu amor;
o momento
preciso,
adamantino,
a ânsia:
o contido,
o brilhar,
o perecer.
Pode parecer
absurdo
mas Ananda é
o mundo,
como vejo,
ou, o jeito que vejo,
o que é,
então.
Meus olhos, meu olhar,
e a visão - o aviso!
É o mundo a girar,
dividido,
nostalgia do divino,
jóia do desanuviar...
Ígneo solo a pulsar
com esmero infinito,
do fogo aos mistérios
dos reis e ministros
- mas ninguém, ninguém
supera Ananda e seu
poder... Sua pureza
contra qualquer aspereza,
sobre qualquer opressão!
Meu anjo guardião!
Protejo-o,
em meu seio,
um desejo
menino,
um suspiro azul
alimento
com o sumo vermelho
de seu próprio
engraçamento!
Ananda, a busca
e a conquista,
a alma que anima
as coisa vivas,
aliança, me cansa,
mas me dá motivo
de continuar vivo,
humano, resquício
de entendimento,
faísca de realização!
Um anjo maroto cativo,
a inocência, uma incisão
- nasce meu filho
morto, ângulo, abismo.
No limite da razão
dança o menino...
Nasce tão lindo
tão livre
quanto sonhei...
Ananda é a cria
ardente
da confusão
da minha mente
com o cerne
de minha carne -
Ananda é a tarde,
que cai, tom extremo,
agudo êxtase
que me transforma
em nada, nuvem
manchada de Sol,
salmão, dourado,
flor machucada
pelo vento,
pelo atento
rondar das horas.
Ananda é a aurora,
a espera, o revolver.
Mata-me de amor
doçura profunda, procura,
o querer e se satisfazer.
Me guia. Me ilumina.
Me faz anoitecer/adiar
a sua vinda. Vida,
luminosa jóia minha,
criança que acompanha
a Lei que arbitra
sobre nossas cabeças
sentenças inscritas
- é a saída - e o sal,
a sina... É tudo o que
desejo e o que renuncio,
eterno cio, brilho,
beleza, o instinto genuíno,
influxo, sede de luz,
divino ardil absorvente
libertador / ardente / frio
filho, fio de entendimento
laços com o qual me ligo
ao infinito...
Me habita, te habito,
te tato, te ouvido,
amo-te, tanto...
Enquanto o céu azul
não estreitar
- mais...
Mais, amo mais,
amo te amar...
Nada há a fazer,
só te gerar, na ilusão
de que ainda há
lugar para
você coabitar
entre os vivos...
Meu filho morto,
nunca tão vivo,
tua nuca atenta
enquanto brinco
na beira
da beira
do abismo...
O olhar eu adivinho,
divagando sobre os cimos,
negros,
vítreos,
cuidando
de mim
como eu
cuido
do destino...
Silenciosamente...
Eu grito...
Ananda, me chama,
me queima, e eu me arrisco:
vou contigo, vôo contíguo,
me extinguo...
Nada mais, soa.
Somos tudo, voa!
Nada mais
doa
a quem,
do ar,
prefere
aterrar,
esperar outra vida...
Espera, garoto,
outra vida...
Uma vida dentro
de outra vida...
Mil vidas
não seriam
suficientes
para tamanha
façanha!
O menino canta!
Como um pássaro,
vejo-o à distância!
Estou e não estou,
existo e não existo -
só sou em Ananda,
na beira do abismo.
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