Flauta Amarga


Nosso filho nasceu, em segredo.
Sonoro percorreu-me todo o alento.
Filho do não e do tempo.
Filho do esquecimento.

Tentei te arrancar de mim.
Não consegui. Tentei dormir. 
Me fundi. Tentei a dor, a serpente
em si, ela me enlaçou, desfaleci.

Nosso filho nasceu, morrendo.
Filho do Sol e do degredo.
Filho do mar, do receio do medo.
Filho dos filhos do vento.

Retornou à terra, escorrendo,
ó tesouro escondido em meu peito,
amor, solstício, entremeio,
riqueza e miséria aos extremos...

Nosso filho nasceu sem começo
nem fim, fio de água, gota amorfa
que me transporta ao reino da criação,
transposição biológica, elemental.

Volta ao fogo que a todos abarca,
nas narinas a vida ressoa rápida,
ininterrupta, mas é a boca quem perscruta
o leite infinito, inspiração, apuro.

Entoa a vertente do entendimento,
não a mente, à mentira premente, irradia 
amor, a pura sabedoria que é doçura 
aguda ou latente, ritmo - pressentimento.

(A felicidade é uma maldição,
mais que um desejo... Busca-se
mas não com precisão, pois o que
é não sabemos, só temos o intento.)

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